Alguém escreveu que o talento é invencível em qualquer setor de atividade. Concordo. Sem ele, só na base de muita sorte, do puxa-saquismo, puxadas de tapete, do lobby ou das malditas igrejinhas, as patotas dos incompetentes. Isso tem em toda profissão. Mas toda igreja construída por “pedreiros” inseguros, sempre acaba desabando e o tombo nunca é pequeno, por alicerce fincado em terra fofa.
Mas, e o Riquelme, hein? Será que alguém tem hoje mais talento do que esse notável argentino? Na América do Sul, seguramente que não. Alto, hábil, argentino puro, inteligente e um falso sumido que sempre aparece, é um técnico em campo que orienta, ensina, acalma, apita, ordena para quem a bola deva ser passada, chuta, dribla, faz gol, joga com cara de choro e humilha seus adversários com seu imenso talento. Atônitos, frágeis e perdidos, os gremistas quarta-feira sentiram o mesmo que os inconformados Argel e Galeano naquele Boca e Palmeiras pela Libertadores de 2001, no Parque Antártica. Deu pena, deu nó.
Nesses dois confrontos, separados por seis anos, viu-se o mesmo. Riquelme bailando, driblando e segurando a bola junto aos seus mágicos pés, ao mesmo tempo em que protegia suas pernas compridas de foices voadoras desferidas por tanta gente sem talento, mas imbuída de um tremendo despeito. Ele sempre acaba caindo, falta após falta. Aí, no close da TV, Riquelme, sentado e dolorido, olha pra cima, agora não mais com cara de choro, mas de piedade, piedade daqueles donos de chuteiras assassinas que, de pé, observam no chão a aparente presa abatida.
Ledo engano, os abatidos são eles, os despeitados. Mas por que será que ele joga sofrendo e só sorri quando faz gol? Para Tostão, Riquelme é um triste. Para o gaúcho Ruy Carlos Ostermann, o melhor jornalista esportivo do Brasil em tudo, Riquelme é um depressivo. Ademir da Guia também não era? Gostaria de ter ouvido melhor a tese de Ostermann outro dia na TV esportiva fechada. Não deu, o apresentador, gente boa, a cada oito perguntas suas para um entrevistado em Porto Alegre, dedicava 15 segundos para o professor Ruy.
Desliguei, coisa que, em campo, Riquelme não faz nunca. Triste, depressivo ou não. E se Riquelme fosse um desligado, a bola seria quadrada e o talento não valeria nada na vida. Grande Riquelme, o Maradona calado.